INTRODUÇÃO

O que seria preciso para que alguém pudesse prever o resultado de uma partida de futebol ?

A primeira coisa, bastante óbvia, é a diferença de qualidade entre os times. Sabemos que o Flamengo é melhor do que o Olaria; portanto, é fácil prever que o Flamengo vai ganhar do Olaria no próximo jogo entre os dois times. Vamos chamar a essa diferença de “fator técnico”. Mais adiante, vamos analisar essa diferença em maior profundidade, e veremos que esse “fator técnico” é na verdade uma série de fatores, diferentes mas relacionados, o que nos permitirá entender um pouco melhor como um time que “é” melhor às vezes não “está” melhor exatamente no dia do jogo.

A segunda coisa a levar em consideração também é bastante trivial, pelo menos num primeiro nível de análise. Ela é aquilo que se convencionou chamar “fator campo”. Se o Flamengo é melhor do que o Olaria, também sabemos que essa diferença de qualidade se expressa melhor no Maracanã do que na Rua Bariri. Também o fator campo, como veremos adiante, não é uma coisa única, mas uma composição de meia-dúzia de fatores diferentes, e de importância desigual.

A terceira coisa é algo que chamaremos aqui “fator estratégico”, e é algo mais ambivalente do que os dois primeiros. Se o nosso hipotético Flamengo x Olaria é decisivo para o Flamengo, que precisa ganhar para poder enfrentar o Fluminense na última rodada em condições de disputar o título, isso o torna mais ou menos favorito contra um Olaria que já evitou o rebaixamento mas não pode sonhar com mais do que isso ? O time estará mais motivado do que se também estivesse apenas cumprindo tabela, e portanto com mais vontade de ganhar ? Ou estará mais tenso, e por isso com mais dificuldade de jogar tudo que sabe ?

À parte esses três fatores principais, naturalmente, um jogo de futebol envolve uma miríade de fatores que chamaremos secundários ou aleatórios, cujo impacto sobre a partida é provavelmente bem menor, mas que são sobretudo imprevisíveis. Sabemos que o Flamengo é melhor do que o Olaria. Se olharmos a tabela do campeonato, saberemos que o jogo é na Rua Bariri, o que favorece o Olaria; saberemos também que o Flamengo já é campeão antecipado, enquanto o Olaria precisa vencer para não ser rebaixado à segunda divisão. O que dificilmente vamos saber é que o aluguel do apartamento do goleiro do Olaria está atrasado, que a feijoada que o zagueiro central do Flamengo comeu no almoço vai começar a ter efeitos colaterais bem na hora do jogo, que o ponta-esquerda do Olaria está começando a ficar gripado. E também teremos dificuldade em saber se vai chover no dia do jogo, ou se um engarrafamento monstruoso vai dificultar a presença da torcida. Nós podemos em geral supor que esses fatores aleatórios se anulam uns aos outros, e isso é provavelmente o que acontece na grande maioria dos casos. Mas talvez nem sempre isso seja verdade, e num dia em que eventualmente apostamos no Flamengo tudo dê certo para o Olaria, e tudo dê errado para o Flamengo, e percamos a aposta por que o Olaria faz 2 a 0 contra o Flamengo, em pleno Maracanã, apesar de ser o lanterna do campeonato e o Flamengo precisar apenas de um empate para ser campeão antecipado.

Vamos, porém, analisar mais de perto aquilo que pode ser previsto, antes de nos preocuparmos com o que não pode.

O FATOR TÉCNICO

Por que o Flamengo é melhor do que o Olaria ? Em primeiro lugar, por que tem jogadores melhores do que o Olaria. Essa é uma verdade que vale para praticamente qualquer momento da história dos dois times. Em 1947, o Flamengo era melhor do que o Olaria, jogador por jogador. E isso também acontecia em 1971, 1933 ou 2007. Ocasionalmente, é claro, o Olaria tinha um ou dois jogadores que eram melhores do que os do Flamengo em uma determinada posição (afinal, Garrincha jogou no Olaria). Mas, jogador por jogador, há uma continuidade notável no fato de que a maioria dos jogadores do Flamengo é sempre melhor do que a maioria dos jogadores do Olaria. Por que isso acontece ?

O motivo mais óbvio é que o Flamengo paga salários maiores aos seus jogadores (e técnicos, auxiliares, preparadores físicos, médicos, etc.) E que paga salários maiores por que tem mais dinheiro, e tem mais dinheiro por que tem mais torcida, que, por conseguinte, paga mais ingressos e motiva emissoras de tevê a transmitir mais jogos do Flamengo, e tudo isso proporciona ao Flamengo rendas maiores do que as do Olaria. Aqui entra em cena, é claro, uma espécie de “questão Tostines”: afinal, o Flamengo é melhor do que o Olaria por que tem mais torcida, ou tem mais torcida por que é melhor ?

Não é o caso de tentar responder aqui essa pergunta difícil. Vamos aceitar que se trata de um ciclo; em algum momento do passado, um time ganhou mais torcedores, vendeu mais ingressos e construiu um time melhor, que então angariou mais torcedores – ou, ao contrário, que em algum momento um clube conseguiu alguma doação ou patrocínio, que lhe permitiu contratar um time melhor, e então angariar mais torcedores, que então renderam mais dinheiro na bilheteria. Mas uma diferença importante entre os times é o tamanho de sua cidade sede (e o número de times que competem dentro dela). É muito mais fácil uma cidade de um milhão de habitantes sustentar um grande time do que uma cidade de cem mil; e uma cidade de cem mil estará melhor se tiver um único time expressivo de futebol do que se tiver dois ou três disputando a preferência do torcedor. Alguns grandes times, porém, conseguem ter torcidas que se projetam além de suas cidades-sede. O Flamengo é o melhor exemplo, sendo um time que tem uma torcida nacional, assim como o Santos; os outros times grandes cariocas e Coríntians, em escala menor, também. O Grêmio e o Internacional têm torcidas estaduais, e são ainda beneficiados por que nem os times cariocas nem o Coríntians “entram” no estado; assim, a base torcedora dos dois grandes gaúchos não é a metade de Porto Alegre, mas (quase) a metade do Rio Grande do Sul inteiro.

É importante ressaltar que essa vantagem é o que os historiadores chamariam “estrutural”. Ela é contínua e constante, embora possa ser às vezes maior ou menor. Mas se compararmos o Flamengo com o Fluminense ou o Vasco, ou se compararmos o Olaria com o Madureira ou o Bonsucesso, veremos que nem sempre é o caso nas comparações entre os times. É difícil dizer que o Flamengo “é” melhor do que o Fluminense. Em algumas ocasiões – como, por exemplo quando o Fluminense foi rebaixado à segunda e terceira divisões do campeonato brasileiro – isso pode parecer evidente; mas em outras ocasiões é o contrário que parece óbvio. São situações que os historiadores chamariam “conjunturais”: não é exatamente que o Flamengo “é” melhor do que o Fluminense, mas às vezes é visível que “está” melhor do que o rival.

E aí obviamente não pode ser o caso de que essa superioridade seja causada diretamente por um ciclo virtuoso de mais dinheiro – mais torcida – mais dinheiro. O fator que mais evidentemente causa esses ciclos conjunturais é o que se chama entrosamento, e é algo que o dinheiro tem muito mais dificuldade de comprar do que a qualidade individual de cada jogador. Jogar um bom futebol demanda bons jogadores, mas também demanda jogadores que gostem de jogar uns com os outros. E se um time tem onze excelentes jogadores, mas cada um deles odeia os outros dez, é possível que não consiga jogar melhor do que um time que tem onze jogadores medianos, mas que se comportam como um conjunto bem-ordenado, cooperando o máximo possível para que o time ganhe suas partidas.

Parte desse entrosamento tem a ver com o técnico, ou treinador. Não é a única forma como um técnico influencia os resultados do seu time (entender de futebol, se dar ao trabalho de estudar os adversários, exigir dos jogadores nos treinos, saber o que é importante exigir deles, etc., tudo isso tem muita importância, talvez mais do que a capacidade de entrosar o time). Mas entrosar o time é uma das tarefas do técnico, embora nem sempre reconhecida como tal, e é provavelmente o que explica o sucesso de treinadores como Renato Gaúcho ou Filipão; mais do que entender de futebol, eles entendem de jogador de futebol, provavelmente por que já foram jogadores eles mesmos, o que lhes dá uma vantagem enorme sobre técnicos como Parreira ou Lazaroni, que talvez tenham conhecimentos teóricos maiores, mas não são tão bons como psicólogos intuitivos quanto os dois primeiros.

Outro fator que está relacionado com as conjunturas dos times é a necessidade de renovação. Como todo mundo, jogadores de futebol – e técnicos – envelhecem, e precisam eventualmente ser substituídos. Naturalmente, quanto maior a superioridade estrutural de um time de futebol, maior a probabilidade de essa transição ser bem sucedida. Mas nem sempre ela se dá sem problemas, mesmo nos times bem-estruturados. Imaginemos a dificuldade do Santos em encontrar um substituto à altura para Pelé, e veremos que, mesmo sendo o Santos um dos “grandes” paulistas, a saída do super-craque teria necessariamente que causar uma crise conjuntural no “Peixe”.

E, de fato, a campanha do Santos no campeonato paulista de 1974, o último em que Pelé jogou pelo time de Vila Belmiro, foi de 14 vitórias, 8 empates e 4 derrotas – 36 pontos conquistados, pela regra da época, de 2 pontos por vitória e 1 por empate – sobre 52 disputados, com um aproveitamento de 69,23%, que valeu ao time de Pelé o terceiro lugar no campeonato. Em 1975, sem Pelé, a campanha do Santos no “paulistão” foi de 15 vitórias, 6 empates e 11 derrotas – 36 pontos conquistados em 64 disputados, com um aproveitamento de 56,25%, quase 13 pontos percentuais abaixo do ano anterior, o que deixou o time num incômodo quinto lugar na disputa.

Para simplificar, chamaremos o conjunto de fatores estruturais – dinheiro e tamanho da torcida – de “tradição”, e os fatores conjunturais – entrosamento, renovação – de “fase”. Assim, diremos que o Palmeiras tem mais tradição que o Juventus da Rua Javari, mesmo quando está numa fase ruim e o Moleque Travesso está numa fase boa.

Os apostadores da Loteria Esportiva levam em consideração o fator técnico em seus dois aspectos principais ? Ou priorizam um deles sobre o outro ? Uma pesquisa mais aprofundada é necessária para responder essa questão. A impressão inicial é que, salvo nos casos em que um dos times é muito pouco conhecido (quando a tradição tem um peso grande no ideário do apostador), a fase tem um peso maior na maioria das apostas. Para verificar isso, vou ainda precisar registrar a situação imediata dos times que participam em cada jogo da LE, para entender a fase em que eles se encontram (a tradição pode ser estabelecida, em princípio, pelo retrospecto dos times na própria Loteria Esportiva). A maior dificuldade, porém, está em determinar o percentual de apostas em cada time e no empate. Entretanto, se esses dados puderem ser obtidos e comparados, será possível saber se o apostador joga no Cruzeiro (que tem mais tradição) contra a Caldense, mesmo quando o Cruzeiro está muito mal e a Caldense excepcionalmente bem, ou, se, ao contrário, se deixa influenciar pela boa fase da Caldense diante da má fase do time de maior tradição.

O FATOR CAMPO

O fator campo, contra-intuitivamente, é bem mais complexo do que o fator técnico. Ele se compõe de diversos fatores subordinados, que passamos a analisar em seguida. A primeira coisa, a mais óbvia, e que é no que a maioria das pessoas pensa quando se fala de “fator campo”, é a presença da torcida do time “da casa” em maior número que a do visitante. Como discutimos acima no caso do “fator estratégico”, porém, o fator torcida é bastante ambivalente. Assim como a torcida pode incentivar o time, ela também pode cobrar. Situações de tensão entre a torcida e o time são comuns, especialmente no caso de times com grande tradição, quando experimentam fases ruins, ou, menos dependente da tradição, quando a situação estratégica do time é complicada, gerando uma obrigação de vencer para atingir um objetivo (ser campeão, evitar o rebaixamento, conseguir a promoção ou uma classificação para outra copa ou campeonato). Por outro lado, a torcida, além de incentivar ou pressionar o time da casa, também pressiona o árbitro – possivelmente, com mais sucesso1. Ainda é importante notar que o fator torcida é potencializado – para benefício ou prejuízo do time da casa – em estádios pequenos, onde a torcida fica mais perto do gramado.

Uma breve consulta aos dados da Loteria Esportiva mostra que o fator campo é bem real. Como o time da casa é (quase) sempre o time da coluna 1 (são exceções os casos de inversão determinada pela Justiça Desportiva, acordos entre os times, erros da Loteria Esportiva, e casos de campo neutro), deixando a coluna 2 para os visitantes, o número de “colunas 1” no histórico da LE reflete de forma bem aproximada o fator campo. E é uma preponderância considerável: até o concurso 957 da fase atual da Loteria Esportiva, foram 15.644 colunas 1, 9.951 colunas do meio e 9.147 colunas 2, correpondendo aos percentuais de 45,03%, 28,64% e 26,33%, respectivamente2.

Portanto, outros aspectos devem ser levados em consideração, além da presença da torcida (aliás, os jogos realizados sem torcida por causa da pandemia de Covid-19 mostram, empiricamente que o fator campo não se reduz ao aspecto torcida). O mais importante deles, que provavelmente responde pela maior parte da vantagem do time da casa, é o conhecimento do campo3. Um time que tem um estádio treina nele quase diariamente, e joga nele com frequência. Seus adversários não treinam ali, e, em princípio, só jogam ali quando enfrentam o dono do estádio. Por isso, o time da casa está acostumado às dimensões do campo, às suas irregularidades (importantes sobretudo no caso de times “pequenos”, pobres, que não têm condições de dar manutenção de alta qualidade ao gramado).

Isso explica por que o fator campo é aumentado pela existência de divisas estaduais ou fronteiras nacionais separando os times. O Grêmio joga principalmente no seu estádio, a Arena Grêmio. Mas visita regularmente os gramados de Caxias do Sul, Pelotas, Bagé, etc., além, é claro, do estádio do Internacional. É menos frequente que jogue em Alagoas ou Manaus, menos ainda em Montevidéu, e é raro que jogue em Marselha ou Bérgamo. O conhecimento do campo, portanto, é influenciado pelo pertencimento dos times às diversas federações e confederações, que são quem organiza os campeonatos.

Um terceiro aspecto, de importância menor, é a distância física entre a sede do visitante e o estádio onde tem de jogar. A viagem pode ser mais ou menos cansativa, dependendo da distância, e cobrar seu preço do time visitante. Mas é um fator subordinado em relação ao conhecimento do campo. O Flamengo conhece melhor o campo do Americano de Campos do que o do Tupi de Juiz de Fora (em princípio; houve uma fase em que o Flamengo, fugindo de sua torcida, mandava alguns jogos em Juiz de Fora), porque joga lá todo ano, se o Americano estiver na primeira divisão do campeonato estadual, mesmo que a distância do Rio de Janeiro para Campos (278 km) seja menor do que a da capital fluminense para a cidade mineira (183 km). Entretanto, quando a distância é realmente grande, ela pode desencadear dois outros subfatores, que podem ser inclusive mais importantes que a distância em si: o problema do fuso horário, em que o time visitante pode ser obrigado a jogar quando normalmente estaria dormindo, se a distância é grande na direção leste-oeste (que parece ser o aspecto realmente mais importante do fator distância4); e a questão do clima, quando a distância é grande na direção norte-sul, fazendo o time visitante ter de jogar em temperaturas a que não está acostumado (uma dificuldade em qualquer época do ano, quando o jogo é na Amazônia e o visitante é de outra região do país, e um problema no inverno, quando o jogo é em São Paulo ou mais ao sul e o visitante é do Norte ou do Nordeste). De qualquer forma, as distâncias entre as sedes dos times nos campeonatos estaduais brasileiro, assim como nos campeonatos nacionais de Portugal, Espanha, Itália, França, Inglaterra e Alemanha, que formam parte substancial das partidas incluídas na Loteria Esportiva, são relativamente pequenas. As distâncias no campeonato brasileiro e, sobretudo, Copa do Brasil (que é menos seletiva) são potencialmente maiores, podendo chegar a dois fusos horários na direção leste-oeste e a cerca de 30 graus de latitude - a diferença entre o clima equatorial e o subtropical - na direção norte-sul. Mas o predomínio dos clubes do centro-sul no campeonato brasileiro e a relativa fragilidade dos times da região amazônica diminui a probabilidade de encontros entre times muito distantes.

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A maior distância a ser percorrida pelos times visitantes na Série A do Campeonato Brasileiro é a que vai de Porto Alegre a Fortaleza


Outro subfator ainda é a altitude. Ao contrário do fuso horário e do clima, que sempre prejudicam o visitante e beneficiam o time da casa, a altitude é unilateral: só prejudica o visitante quando este tem de subir. Os times da montanha, ao contrário, nunca são prejudicados por jogarem no litoral. A altitude tem efeitos realmente sensíveis a partir de 2.000 metros, sobretudo5. Times do Rio de Janeiro, ao nível do mar, não parecem ter problemas para jogar em Brasília (altitude 1.172 m). Como a cidade mais alta do Brasil, Campos do Jordão, está apenas 1.628 m acima do nível do mar (e não tem times disputando campeonatos importantes, ou que já tenham sido incluídos na Loteria Esportiva), não é muito provável que o apostador tenha que se preocupar com isso, exceto quando os concursos incluem times estrangeiros – especialmente da região andina da América do Sul (Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru) ou do México. É preciso, porém, lembrar que a altitude influencia o clima; cidades mais altas tendem a ser mais frias do que as mais baixas, independente da estação do ano.